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História do Brasil Nação:1808-2010; Abertura para o Mundo 1889-1930; População e Sociedade (Schwarcz, Lilia, pg 35-83; Ed Objetiva e Fundación Mapfre, 2012)

Entre 1889 e 1930, os trilhos da civilização assentavam-se nas regiões mais dinâmicas do Brasil. Os tempos urgiam e a locomotiva progressista ansiava passar. Os obstáculos precisavam ser removidos ou mesmo atropelados. Enveredando-se por esses trilhos nervosos, Lilia Schwarcz inicia o primeiro capítulo de História do Brasil Nação, volume 3, A Abertura para o Mundo. Ela se propõe a traçar um rico panorama da sociedade brasileira, a partir desse recorte temporal, valendo-se tanto de estudos bibliográficos como de fontes primárias.

“Lilia Katri Moritz Schwarcz (São Paulo, 1957) é uma historiadora e antropóloga brasileira. É doutora em antropologia social pela Universidade de São Paulo e, atualmente, professora titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas[2] na mesma universidade. É autora de importantes obras como "Raça e diversidade" e "As Barbas do Imperador - Dom Pedro II, um monarca nos trópicos".[3] Também é fundadora da editora Companhia das Letras. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Lilia_Moritz_Schwarcz). ”

O capítulo População e Sociedade está estruturado em sete subcapítulos, cada um enfocando um aspecto distinto da realidade social e seus variados atores, numa tentativa de ampla abrangência.

Numa Babel de Povos Culturas e Cores, Lilia, logo nesse primeiro subtítulo, faz alusão à bíblica Torre de Babel, a fim de ilustrar o acentuado fenômeno imigratório que marcou o período e seus inerentes conflitos culturais, os quais se espalharam pelo país, mas concentraram-se, principalmente, na região sudeste, com destaque especial para a zona cafeeira de São Paulo. Segundo ela, os conflitos decorrem de múltiplos fatores desde as diversas línguas, permeando dicotomias tão geográficas quanto sócio-políticas (campo\cidade) até as expectativas frustradas dos imigrantes diante da precária realidade, em face das propagandas enganosas, capitaneadas, destacadamente, pelo governo paulista junto aos cafeicultores.

“O Brasil Civiliza-se”: Urbanização e Crescimento: a partir desse segundo momento, a desenvolta autora percorre o caminho das muitas inovações tecno-científicas que ebuliam entre o final do séc. XIX e o início do séc. XX: telégrafo, locomotivas, navios a vapor, luz elétrica, descobertas da medicina, dentre outras. Inovações capazes de transformar profundamente realidades concretas e revolucionar hábitos cotidianos, nas palavras dela. Ainda assim, o alcance desse progresso é questionado do mesmo modo como o discurso que acompanhava cada descoberta, cada invenção. O discurso da civilização, do progresso inexorável, as hierarquizações sociais, as dicotomias, as inclusões excludentes e tudo mais.

O foco desse subcapítulo é a trajetória das três cidades que compuseram o eixo econômico do sudeste: Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo. Uma capital reinventada, mimetizando a luminosa Paris; outra capital de Estado planejada e criada a partir do nada; e, finalmente, a locomotiva inchada que se via como a encarnação do progresso, aquela que arrastava atrás de si as regiões “atrasadas” do país. Apesar das peculiaridades de cada uma, todas elas estavam investidas do espírito do seu tempo, um tempo clamante por modernidade. Na contra-face desse espelho, um sertão rústico debatia-se desesperado por atenção.

Movimentos Sociais: Sertanejos, Indígenas e Operários entre a Inclusão e a Exclusão - observando o outro lado da moeda, Schwarcz empreendeu uma visita aos sertões bravios da Primeira República brasileira. Sertões estranhos, por vezes, incompreensíveis. O empreendimento foi auxiliado pela pena aguda de Euclides da Cunha, autor consagrado de Os Sertões, testemunha ocular daquilo que ele denominou “massacre de Canudos”.

Canudos representou a luta emblemática entre a República e os sertões, símbolos, respectivamente, de modernidade e atraso; cosmopolitismo e isolamento; o lado escuro da Lua, chamada Brasil; os variados projetos de república e de nação, com seus critérios de inclusão e exclusão. A autora explora também as revoltas do Contestado, ocorrida numa região entre o Paraná e Santa Catarina, além da revolta de Juazeiro, encabeçada pelo Padre Cícero, um líder daquilo que ela chamou de catolicismo rústico. Cada um desses movimentos, guardadas suas idiossincrasias, inserem-se num contexto de profunda pobreza e invisibilização social, alicerçada nas políticas excludentes da jovem República. Cada um, a seu modo, se utilizou de seu arcabouço religioso, a fim de mobilizar as massas e procurar soluções para seus problemas, sendo duramente reprimidos pela pátria madrasta.

Não menos importantes foram as mobilizações grevistas pinceladas por Schwarcz. A ascensão do movimento anarquista, destacadamente da vertente anarcosindicalista, foi capaz de liderar inúmeras greves nas urbes em processo embrionário de industrialização. Os trabalhad