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Fazedores de Desertos


Segundo Euclides da Cunha, apoiado em documentação da Coroa portuguesa, desde 1713 existiram vários decretos tentando coibir a prática de atear fogo em áreas florestais com fins agropastoris.[1] Conhecida como “queimada”, essa prática destrutiva foi largamente utilizada pelos diversos povos indígenas que habitavam há milênios o futuro território brasileiro. Contudo, os portugueses elevaram o potencial destrutivo das queimadas a outro patamar graças ao seu estilo de vida sedentário, à cada vez maior densidade populacional e a uma economia voltada para a produção, compra e venda de excedentes.

Cunha fez uma descrição pormenorizada da região que sediou a guerra de Canudos, talvez a descrição mais detalhista que temos notícia. Ele enumerou as vicissitudes daquela natureza hostil e ambivalente. Períodos longos de secas mortais contrastavam com momentos curtos de chuvas torrenciais e uma transmutação surpreendente da paisagem. Mas nem todas as adversidades dos sertões ficavam por conta da mãe natureza. Uma parcela dos estragos cabia aos filhos sertanistas e aos sertanejos: os gananciosos desbravadores junto aos humildes moradores. “Deu um auxiliar à degradação das tormentas, o machado do catingueiro; um supletivo à insolação, a queimada.” (CUNHA, 2018, p. 49)

O mais interessante foi a percepção atualíssima de Cunha em sublinhar a importância do fator humano nas mudanças ambientais. Não menos instigante foi notar essa mesma percepção nas ações da Coroa portuguesa quase dois séculos antes de Cunha! A mesma Coroa que não estimulava o desenvolvimento técnico-agrícola da Colônia ficava alarmada com os efeitos da técnica herdada dos indígenas e seu uso indiscriminado pelos colonos. Cunha salientou também o processo de desertificação do solo assim como a associação entre a alta variação de temperaturas com a ausência de cobertura vegetal. O jornalista chega a sugerir uma solução para os dramas sertanejos a partir do exemplo da Tunísia que teria um ambiente similar e tornou-se mais amigável à vida humana após um conjunto de intervenções hidráulicas[2]. Claro, intervenções humanas, não divinas.

As ações do Império português mencionadas por Cunha certamente não foram impulsionadas por uma preocupação ecológica. O projeto imperial nessas bandas da América do Sul era eminentemente econômico, ainda assim, uma infraestrutura se fazia necessária e essa infraestrutura seria impossível em um deserto. Hoje, de modo injustificável devido as atuais tecnologias, continuamos fazedores de desertos. Não apenas nos sertões, mas em todo território nacional e em especial nas áreas florestais que restaram, as sobreviventes de séculos de depredação. Muitos negam os efeitos da destruição em nome do dinheiro. Muitos outros se negam a mudar seus velhos hábitos cotidianos e destrutivos. A secura do deserto ainda encontra um habitat perfeito em nossas mentes e corações.

[1] CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo. Ed. Ciranda Cultural. 2018. p.48 [2] Ibid., p. 50