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Contradições de Carlos Fuentes


Carlos Fuentes descreve a conquista romana da península ibérica, ao meu ver, de forma romântica, exaltando a suposta harmonia como esta se deu.(pg 35) Roma teria preenchido o "vazio cultural" dos "primitivos" celtibéricos apenas pelo poder civilizatório da urbanização. A cultura agrícola dos nativos interioranos careceria do vigor urbano, característica dos povos civilizados ligados ao comércio e sua consequente troca de idéias que favorecia o desenvolvimento das artes, filosofias e ciência. Fuentes contrasta a benevolência romana com a violência atroz do Império Espanhol, ao dominar os povos de culturas pré-colombianas.

       É notável a contradição que se apresenta logo na página seguinte, ao destacar o individualismo e o apego à terra natal ( aldeia) dos povos ibéricos, os quais constituem o fermento de uma resistência tenaz ao domínio romano. Resistência essa que ganha contornos épicos na narrativa do mexicano, ressaltando o papel emblemático de Numância, na sua capacidade de suportar as privações do sítio romano sem se entregar. Ela leva a guerra às suas últimas consequências com o suicídio coletivo da maioria dos habitantes! Vale lembrar que já havia resistido anteriormente, por cinco anos, através des seus incasáveis e temíveis guerrilheiros.

      Viriato é outro personagem salientado pelo autor, devido a sua grande habilidade guerrilheira. Sua força e inteligência militar esgotaram os romanos, a ponto de o declararem como amigo. Depois, apunhalaram-no pelas costas. Segundo Fuentes, ele só poderia ser derrotado por traição.(pg 38) 

     Seja como for, fica claro por conta dos próprios exemplos citados pelo autor que o domínio romano foi tão violento quanto a conquista espanhola no novo mundo. A mera construção de cidades e estradas estava bem longe de ser suficiente para acalmar os ânimos de uma população, a qual via seu território invadido sem respeito algum. Além disso, as instituições romanas não se estabeleceram de forma pacífica. Suas leis, religião,  língua e toda parafernália cultural deve ter sido bastante indigesta para esses ibéricos milenares. O conflito basco demonstra como essa dor de barriga persiste até hoje.

      De forma alguma, esse equívoco tira o prestígio de Carlos Fuentes, afinal ele foi um grande intelectual e não tinha formação de historiador. De certo modo, ele parece dar voz ao coração em certas passagens do texto. O calor das emoções pode ser tão nocivo quanto a atual frieza acadêmica.

Citações:


     "Ao longo de muito tempo, Roma foi a experiência culminante da conquista da Espanha por uma força externa: antes das invasões mulçumanas de 711 [...] a Espanha, nas Américas, esmagou de maneira deliberada as civilizações preexistentes [...] substituindo violentamente uma forma de cultura por outra, a experiência hispânica com os romanos foi exatamente oposta ( grifos nossos). A Itália criou na Espanha um governo e instituições públicas harmoniosas [...] Levou idéias de unidade [...] E o fez mediante o instrumento da vida urbana." ( p. 35 )


      "[...] os ibéricos sentiam uma atração profunda pela sua própria localidade, sua aldeia [...] os comandantes romanos tinham de lutar sucessivamente contra uma aldeia, e outra, e cada uma delas oferecia às coortes romanas resistências prolongadas e tenazes." ( grifos nossos) ( p. 36 )

     ( Numância sitiada) "Mas Numância não se rendia, até que, no ano 133, segundo La guerra ibérica , de Apiano: ' a maioria dos habitantes se suicidou, e os demais... saíram... oferecendo um espetáculo estranho e pavoroso [...] em seus rostos se inscreviam a raiva, a dor e o esgotamento.' " (p. 37)


Referência Bibliográfica:


Fuentes, Carlos; O Espelho Enterrado; Editora Rocco; Rio de Janeiro; 1992


 WIKIPÉDIA:


Carlos Fuentes Macías (11 de novembro de 1928, cidade do Panamá, Panamá) é um escritor mexicano.

Estudou na Suíça e nos Estados Unidos da América. Foi embaixador do México na França. Lecionou em Harvard, Cambridge, Princeton e outras universidades norte-americanas de renome internacional. Viveu em outras grandes cidades como Quito, Montevideo, Rio de Janeiro, Washington DC, Santiago e Buenos Aires. Durante a sua adolescência voltou ao México, onde residiu até 1965.

Foram-lhe já atribuídos diversos prémios e distinções entre os quais o Prêmio Miguel de Cervantes, em 1987.

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