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Chilling Adventures of Sabrina

Atualizado: 29 de ago. de 2021


Olá galerinha do Baxter High e da Academia das bruxas. Para quem não assistiu a série da Netflix "O Mundo Sombrio de Sabrina" super recomendo e aproveito para deixar um alerta de spoiler...



Análise de obra ficcional televisiva


(Chilling Adventures of Sabrina)

Segundo a Wikipedia, Chilling Adventures of Sabrina é uma série televisiva criada por Roberto Aguirre-Sacasa para a plataforma streaming Netflix e baseada em quadrinhos de mesmo nome, lançada em 26 de outubro de 2018, ambientada nos anos 60. A série também pode ser considerada uma releitura de uma produção anterior, Sabrina, the Teenage Wicht, lançada em setembro de 1996. Este texto pretende articular alguns estudos sobre bruxaria, inquisição e demonologia, na Idade Moderna, com as mitologias evocadas para a constituição dessa série estadunidense contemporânea.

Sabrina é uma bruxa adolescente, vivendo um conflito identitário por ser metade bruxa, metade mortal. A partir daí, podemos depreender um conceito de bruxa já presente na obra incendiária dos dominicanos Kramer e Spranger, o Malleus Malleficarum de 1487: a ideia da bruxaria como um poder intrínseco à pessoa e um fator hereditário. A situação mestiça da personagem principal se dá pela união “ilícita” entre o pai bruxo e a mãe mortal. Evans Pritchard, em seu livro Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande, fez uma distinção entre o conceito de bruxo e o de feiticeiro na região centro-africana, justamente atentando para o caráter hereditário do primeiro e o de aprendizado do segundo:


Os Azandes acreditam que certas pessoas são bruxas e podem lhes fazer mal em virtude de uma qualidade intrínseca. Um bruxo não pratica ritos, não profere encantações e não possui drogas mágicas. Um ato de bruxaria é um ato psíquico. Eles creem ainda que os feiticeiros podem fazê-los adoecer por meio da execução de ritos mágicos que envolvem drogas maléficas. Os Azande distinguem claramente bruxos e feiticeiros. Contra ambos empregam adivinhos, oráculos e drogas mágicas (...) [Pritchard-Evans, E.E (Edward Evans): Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande; Rio de Janeiro; Ed. Jorge Zahar, 2005, pag. 33]


Essa distinção empregada por Pritchard não se enquadra perfeitamente com o conceito de bruxaria utilizado na série norte-americana. Pode-se dizer que os bruxos de Chilling Adventures of Sabrina seriam tanto bruxos quanto feiticeiros, por possuírem poderes intrínsecos, herdados pelos genitores e por aprenderem ritos mágicos, envolvendo palavras específicas, acessórios especiais e manipulação de ervas. A Academia das Bruxas encarna esse caráter de aprendizado, além disso, a série incorpora um componente fundamental do mundo cristão, ausente na cosmovisão tradicional Azande, o Diabo. Apesar do fator hereditário, a real origem dos poderes bruxos seria o poder do próprio Lúcifer, considerando as bruxas como parte de seus agentes no plano terreno. Essa foi a visão cristalizada no Malleus Malleficarum. Desse modo, a hereditariedade não explica sozinha os poderes sobre-humanos dos bruxos que, dentro do universo demonológico, apresentam-se inseparáveis do pacto com o Demônio:


(...)Consideremos, também, as autorizadas opiniões dos Padres que comentaram as Escrituras e que trataram em detalhes sobre o poder dos demônios e as artes mágicas. Podem consultar-se os escritos de muitos doutores a respeito do Livro 2 das Sentenças, e se comprovará que todos concordam em dizer que existam bruxos e feiticeiros que, pelo poder do diabo, são capazes de produzir efeitos reais e extraordinários, e não são imaginários, e que Deus permite que tal coisa aconteça. Sem mencionar as muitas outras obras em que São Tomás considera em muitos detalhes as ações deste tipo (...) [Tradução Alex H.S.; O Martelo das Bruxas, Brasil 2007, pag. 10]

(...) Daí as bruxas, sem o exercício de um poder natural, e apenas com a ajuda do diabo, podem provocar efeitos danosos (...) [Tradução Alex H.S.; O Martelo das Bruxas, Brasil 2007, pag. 28]

Devemos em especial observar que esta heresia, a bruxaria, não só difere de todas as outras, mas não apenas, no sentido de um pacto tácito, mas por um definido e expresso com clareza, para blasfêmia do Criador que se esforça ao máximo em profaná-lo e causar danos às Suas criaturas, pois todas as demais simples heresias não fazem um pacto aberto com o demônio, isto é, nenhum pacto tácito ou expresso, ainda que seus erros e incredulidades devam se atribuir, de forma direta, ao Pai dos erros e das mentiras. Mais ainda, a bruxaria difere de todas as demais artes perniciosas e misteriosas no sentido de que, de todas as superstições, é a mais conflitante, a mais maligna, e a pior, pelo qual deriva seu nome por fazer o mal, e ainda por blasfemar contra a verdadeira fé. (Maleficae dictae, a Maleficiendo, seu amate de fide sentiendo). [Tradução Alex H.S.; O Martelo das Bruxas, Brasil 2007, pag. 29]

O Malleus, em seu esforço de apresentar uma teologia filosófica, argumenta a respeito da natureza distinta do Diabo em relação aos seres humanos. O Diabo, outrora conhecido como Lúcifer, seria um anjo caído, ou seja, criado anjo com poderes divinos superiores aos mortais humanos. A queda de uma parte dos anjos rebeldes, liderados por Lúcifer, não suprimiu seus poderes sobre-humanos os quais, agora, seriam utilizados para fins maléficos cujo objetivo principal era a perdição das almas, a profanação da obra do Criador. Essa distinção entre os anjos divinos bons ou maus e os meros mortais explicaria a impossibilidade da bruxaria de ser eficaz sem o suporte dos poderes demoníacos. Os anjos caídos, segundo o Malleus (O Martelo das Bruxas: Parte 1: Tradução Alex H.S. 2007, pag. 19) poderiam provocar malefícios sem o intermédio de bruxas, mas utilizavam as bruxas como instrumento porque desejavam corromper e causar a perdição de suas almas. Assim, as bruxas figurariam não apenas agentes do Diabo como suas mais profundas vítimas.

A primeira temporada da série enfoca ao longo de vários episódios o tema do pacto, abordando vários aspectos da questão. Apesar da relutância de Sabrina em aceitar esse contrato diabólico, tudo termina ocorrendo de acordo com os planos incontornáveis do senhor das trevas. O fato de nascer bruxa implicaria um laço inexorável com o Anjo Caído, pois, como já dito, os poderes dos bruxos seriam uma espécie de concessão do Diabo, da mesma forma que os atos miraculosos seriam uma manifestação do poder do próprio Criador. Esse fato foi exemplificado na série pelo surgimento de anjos caçadores de bruxos que possuíam poderes sobrenaturais de natureza diversa da bruxaria. Dentro dessa lógica expressa na série e gestada desde o medievo europeu, os seres humanos eram reles mortais, dependentes da tutela, seja da divindade trevosa, seja do Criador Cristão. O Deus criador assim como seu anjo rebelde seriam as únicas fontes possíveis de poder. Desse modo, realizar proezas sobre-humanas necessariamente ligaria o prodígio a uma das forças divinas. Em outras palavras, como demonstrado na série, renegar o Diabo, renunciar ao pacto, seria equivalente a renunciar aos poderes bruxos.

Essa ligação intrínseca entre as bruxas e o Diabo trouxe outras sérias implicações apontadas, por exemplo, por Trevor Roper, estudioso das bruxas na Idade Moderna. Ainda que a mulher denunciada como bruxa não tenha realizado nenhum malefício, o simples fato de ser considerada bruxa já denotaria uma renegação a Cristo, à fé católica, uma heresia, uma profanação, tudo isso encarnado na ideia do pacto. Desse modo, essa mulher poderia ser penalizada, pois o próprio ato do pacto já envolvia em sua cena, segundo acreditavam os inquisidores, a inversão das liturgias e dogmas católicos com sua adoração ao Demônio, suas orgias e antropofagias, envolvendo crianças:

(...)A bruxa, como veremos, é perseguida simplesmente por ser uma bruxa; o judeu por ser um judeu, por razões não de crença mas de sangue, por defeito de “limpieza de sangre”. [Roper, Trevor: A Crise no século XVII: Religião, A Reforma e Mudança Social; Ed. Topbooks, 1967, pag. 172]

(...) Assim, na ausência de um “grave indicium”, tal como um pote cheio de membros humanos, objetos sagrados, sapos, etc. ou pacto escrito com o Demônio (que seria uma peça rara de colecionador), um indício circunstancial era suficiente para mobilizar o processo. E o indício circunstancial não precisava ser muito convincente: era suficiente descobrir uma verruga pela qual o espírito família era amamentado; um sinal insensível que não sangrava quando picado; uma capacidade para flutuar quando lançado na água ou uma incapacidade para verter lágrimas. Era possível recorrer até mesmo a “indicia mais leves”, como uma tendência para olhar para baixo quando acusado, sinais de medo ou simples aspecto de uma bruxa, velha, feia ou malcheirosa. Quaisquer desses” indicia” poderia estabelecer um caso de “prima facie” e justificar o uso de tortura para produzir a confissão, que era a prova, ou a recusa a confessar, que era prova ainda mais convincente, e justificava ainda torturas mais violentas e uma morte mais horrível. [Roper, Trevor: A Crise no século XVII: Religião, A Reforma e Mudança Social; Ed. Topbooks, 1967, pag. 186]

A Igreja, noiva recatada e obediente a Cristo, comungando de seu corpo sacrificado e transubstanciado, transforma-se na prostituta do Diabo, rebelde à doutrina católica e às convenções sociais, mimetizando a comunhão sagrada através de uma blasfêmia hedionda. Fica assim pintada a imagem pitoresca do “sabá” e sua missa invertida, imagem construída, muitas vezes, a partir de confissões colhidas sob a pressão das torturas amalgamadas a crenças populares preexistentes.

A imagem do “sabá” como inversão da missa católica e das bruxas como noivas do Diabo, parodiando a Igreja como noiva de Cristo, foi materializada na cena do aniversário de Sabrina em que ela se tornaria, efetivamente, bruxa, ao assinar o livro da besta, em outras palavras, realizar o pacto de sangue com o Demônio. Antes de participar da cerimônia satânica, a protagonista desolada, resolve se despedir dos seus amigos mortais e utiliza um vestido de noiva como fantasia de um baile encetado pelo seu colégio comum. Nesse capítulo, ela renega o Diabo, temerosa de sua liberdade, ao passo que é lembrada pelas suas tias bruxas que perderia os poderes caso não consumasse o pacto, reforçando o argumento sobre a fonte do poder bruxo e explicitando a relação assimétrica entre bruxas e o Demônio.

Na cena específica da renúncia ao pacto, vemos um ambiente sombrio e sinistro no interior de uma floresta. O ritual de passagem para o mundo bruxo inicia com a emblemática transformação do vestido branco em vestido preto, sob a luz de uma lua de sangue, opondo-se ao signo solar. Vários bruxos reunidos e alguns portando máscaras assustadoras, com sangue pelo corpo, animais sacrificados e um nítido tom de grande solenidade com o padre da Igreja satânica presidindo a reunião, esse é um “sabá” mais próximo da concepção moderna tradicional, a concepção inquisitorial que insistia na existência de reuniões frequentes em florestas tarde da noite para profanar os sagrados dogmas católicos, aliás, as palavras - profana e profanação - são corriqueiras na série para referir-se subversivamente aos rituais da Igreja satânica em contraposição explícita à Igreja católica e ao chamado falso deus.

O “sabá” das bruxas, tema bastante recorrente nos manuais demonológicos da modernidade, apareceu na série, principalmente, nessa cena do pacto, a assinatura de Sabrina com o próprio sangue no livro da besta. O “sabá” remete a uma reunião misteriosa e demoníaca, no seio de florestas escuras sob a luz do luar. Essa crença nas assembleias satânicas parece ecoar antigos ritos ligados à fertilidade e à natureza, da mesma forma que a maneira peculiar de ir até o “sabá” conecta-se com crenças difusas estudadas por Ginzburg em regiões que abrangem o norte da Itália, partes da Alemanha e região balcânica. Há uma crença em que pessoas são capazes de sair do corpo na forma de espíritos, em determinadas épocas do ano, para lutar contra feiticeiros também em forma de espíritos, a fim de garantir boas colheitas (Ginzburg, 1988, pag. 25). Hoje, certas correntes espiritualistas poderiam facilmente identificar essas saídas noturnas como projeções astrais, projeções da consciência ou experiências fora do corpo. No entanto, os manuais dos inquisidores falam em idas em carne e osso, portanto vassouras mágicas, entre outras artimanhas.

Em Chilling Adventures, o tema da projeção astral aparece variadas vezes, mas não evocando os cultos agrários, as batalhas entre bruxas e benandantis (Ginzburg, 1988, pag. 22), as procissões junto aos mortos ou o mito do exército furioso e suas cavalgadas noturnas lideradas por uma divindade feminina, identificada como Diana em algumas regiões da Europa, a mesma Diana referenciada no próprio Malleus (Trad. Alex H.S., 2007, pag. 9). Na série, a habilidade de sair do corpo surge mais ligada a assuntos pragmáticos como o encontro amoroso do personagem Ambrose ou uma tentativa de alertar os amigos mortais por Sabrina. Contudo, a execução do ritual feito de barriga para cima, associado aos diversos perigos do plano astral, podendo levar à morte fazem eco nas crenças do final do medievo e do início da modernidade europeia que imaginavam essa visita ao mundo dos espíritos como bastante perigosa. Caso o corpo do sensitivo fosse contemplado e iluminado ou fosse enterrado por engano, por exemplo, o espírito ficaria impedido de voltar e vagaria por aquela dimensão até expirar o tempo de vida a ele destinado, segundo os depoimentos dos chamados benandantis, estudados por Ginzburg:

Frei Felice objeta: “Se vós dormíeis como respondestes a eles e como ouvistes a sua voz?” E Paolo: “ O meu espírito lhe respondeu” e explica que é o espírito deles que parte “ e se por acaso na nossa ausência, alguém for iluminar o nosso corpo para contemplá-lo, naquela noite o nosso espírito não poderá voltar, enquanto estiver sendo observado; e se o corpo parecendo morto for enterrado, o espírito irá vagar pelo mundo até o momento previsto para a morte do corpo” (...) [Os Andarilhos do Bem; Ginzburg, Carlos; São Paulo, Companhia das letras, 1988, pag. 27]

Voltando à cena do pacto, podemos notar que a relutância da protagonista em assinar o livro da besta gira em torno da questão da liberdade e do livre-arbítrio. Nesse quesito, é interessante observar mais uma vez o contraponto ao mundo cristão, um contraponto que se revela ambíguo na série. Criticando os paradigmas cristãos, o personagem que encarna a autoridade da Igreja sombria, padre Faustus, alega representar a verdadeira liberdade, sem as castrações impostas pelos dogmas católicos. Longe da imagem malévola alimentada pelos cristãos, Lúcifer seria o promotor da liberdade. Contudo, o desenrolar da série contradiz a imagem do Diabo benevolente e apresenta o mais ardiloso dos tiranos. A série parece criticar as duas ortodoxias, a luciferana e a cristã, introduzindo Sabrina como uma espécie de terceira via, lutando entre dois mundos intolerantes e preconceituosos.

As contraposições constantes entre forças do mundo cristão e suas representações especulares com imagens invertidas uma da outra ocultam o silenciamento perverso das cosmovisões não-cristãs e não enquadradas nos referenciais desse sistema teológico. O caso dos benandantis já citado é apenas um exemplo de crenças com referenciais próprios, lógica interna autônoma e que, nesse caso, termina sendo engolido pelo feroz enquadramento inquisitorial cristão. Podemos citar também a divindade africana Exu, identificado com o Diabo cristão, a fim de ganhar inteligibilidade para os conquistadores portugueses, uma falsa inteligibilidade, pois esse enquadramento forçado distorce completamente o sistema de crenças do qual a entidade faz parte.

Outro ponto fundamental na série é a centralidade das mulheres. É ponto pacífico entre os estudiosos da perseguição às bruxas que o principal alvo do Santo Ofício eram as mulheres, focando no estereótipo criado da velha, solteira, sozinha e geralmente pobre. As mulheres não tuteladas por homens pareciam sempre perigosas, uma subversão à ordem reinante. Nota-se que as bruxas, apesar de sua rebeldia para com as leis do Deus católico, acabavam por submeter-se às leis de outra figura masculina, o Diabo. A possibilidade dessas mulheres terem poder era tão impensável que suas artes misteriosas só poderiam ser possíveis graças ao Demônio. Outra vez o padre Faustus exemplifica explicitamente a misoginia hegemônica, apegado a valores antigos. Sabrina recusa a tutela de Deus e do Diabo, recusa a obediência cega àquelas figuras masculinas dominantes, ela ousa trilhar o próprio caminho, demonstrando seu próprio poder.

Seja lutando contra os Blackwoods, contra os brutamontes preconceituosos do Baxter High ou desafiando o senhor das trevas, Sabrina fez as escolhas que lhe foram negadas pelas autoridades temporais ou espirituais. A personagem Lilith, esposa de Lucifer, que inicia sua aparição submissa ao seu senhor, parece inspirada por Sabrina a lutar pelo seu lugar ao sol. A segunda temporada termina com a ascensão de Lilith, uma mulher, ao trono do Inferno e a derrota de Lúcifer por Sabrina e seus amigos. Sabrina encarnou o livre-arbítrio, conquistando a liberdade, ao persistir no ato de escolher. Diante de aparentes destinos inexoráveis, a aprendiz de feiticeira decidiu narrar o impossível escrevendo com sangue no seu próprio livro.

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