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A Fraternidade para além da Direita e da Esquerda


Olá galerinha do bem e do mal, direitinha e sinistra...

Hoje, pretendo escrever um breve ensaio amador, a fim de estabelecer parâmetros rudimentares, na tentativa de fazer emergir um pensamento não enquadrado nas categorias de direita e esquerda, sem, contudo, deixar de relacionar-se com ambas. Tudo isso com vistas em desenvolvimentos futuros, a partir de leituras mais aprofundadas.

A grosso modo, a ideia de direita e esquerda aparece de maneira mais nítida no decorrer da Revolução Francesa (1789-1799), com girondinos sentando à direita na câmara, jacobinos à esquerda e o chamado pântano, ao centro. Sendo os primeiros, desejosos de moderação política; os segundos, ansiosos pela radicalização da revolução, com ampla participação popular; os terceiros, pendendo ora para um lado, ora para o outro, sem se definirem.

Caminhando dois séculos adiante, percebemos que alcunhas como conservadores, monarquistas, liberais, neoliberais, burgueses e capitalistas são atribuídas à direita; enquanto socialistas, comunistas, anarquistas, sindicalistas e socialdemocratas, à esquerda. A partir desse dualismo, lutas virulentas são travadas pelos defensores de cada lado, muitas vezes, sem espaço nenhum para um diálogo, já que cada um arroga para si o monopólio da verdade, transformando debates em agressões verbais e, até mesmo, físicas. Geralmente, ambos sequer dominam o arcabouço teórico que defendem e muito menos se dão o trabalho de conhecer a fundo o arcabouço teórico opositor.

Particularmente, sou seduzido por discursos oriundos dos dois lados, entretanto, existe algo neles que me incomoda. Para evitar, justamente, o dito pântano, elenquei quatro características marcantes em cada corrente, as quais parecem ser o principal alvo de ataque por parte dos detratores da direita ou da esquerda. São elas: o individualismo, o conservadorismo, o religiosismo e a violência pela direita; o coletivismo, o relativismo, o materialismo e, igualmente, a violência pela esquerda.

Abordarei, agora, sumariamente, o sentido negativado desses oito caracteres. O individualismo aparece como base estruturante do pensamento liberal clássico em figuras notórias: John Locke, Adam Smith, Ricardo e outros. O ponto chave de tensão seria o egocentrismo subjacente, gerando um sistema propagador do egoísmo, o qual envenena as relações sociais, no momento em que inviabiliza a solidariedade e o sentimento de compaixão que a precede. Os interesses pessoais tornam-se intransigentemente centrais, afetando desde o plano micro ao macro, com força: classismos, imperialismos, corporativismos, etnocentrismo e afins são exemplos da ação egoística cujos resultados nocivos são bem conhecidos.

O conservadorismo do pensamento entrava o enriquecimento intelectual, cultural e tecnológico. Existe aí uma rigidez, uma intransigência em reconhecer a complexidade da vida e seus tons de cinza, algemando tudo ao seu preto e branco. Existe um apego ingênuo às virtudes da tradição, um receio quase patológico, em relação ao novo. Certezas são cristalizadas e, de cristais, passam a tábuas de salvação apodrecidas num mar de incertezas. No fim, resta apenas a estagnação, o imobilismo e a violência utilizada para evitar a inexorável mudança.

O religiosismo, nesse caso, é praticamente sinônimo de dogmatismo. Mas, por que não dizer mitificação do discurso religioso assim como daqueles que o proferem? Mitificação dos livros sagrados que impedem a crítica, a autocrítica, a contextualização. Interpretações literais e ou convenientes de trechos bíblicos. Visão fragmentada com pretensões totalizantes. Isso gera empobrecimento intelectual, suscetibilidade à manipulação e à violência justificada.

A violência, por seu turno, parece permear tudo, assim como a tudo corrompe, ao mesmo tempo, justifica-se das mais variadas formas, algumas delas, beirando o completo delírio. Do lado direito, ela constitui-se guardiã do “establishment”, envernizada pelo Direito, aureolada pelas coroas das autoridades instituídas, empunha na mão direita a afiada espada da moral e dos bons costumes e está sempre disposta a abdicar das boas maneiras a fim de defendê-las. Já a mão esquerda esconde um sorrateiro punhal, pronto para golpear, seja pela frente ou pelas costas, os terríveis inimigos da revolução. A esquerda conclama “todos os seus” (sic) à guerra para estabelecer seu mundo de paz. O punhal que arrancará aquela mão empunhando a espada. Assim, a violência à esquerda é vista como um mal necessário a fim de atingir um bem maior. Ou, talvez, nem mal seja, já que seus alvos são legitimados pelos objetivos. A mesma violência que mantém o “establishment” seria canalizada para destruí-lo. Teoricamente, parece possível, mas como já disse alguém: na prática, a teoria é outra. E muitas práticas foram irremediavelmente desastrosas: União Soviética e China, para citar duas.

A violência alimenta-se de si, por isso, tentar destruí-la com mais dela mesma é, no mínimo, equivocado. Engana-se quem acredita poder controlar a violência em larga escala, dirigi-la, direcioná-la por muito tempo. Talvez seja possível por pouco tempo, porém, uma vez que a faísca atinge o barril, todas as cabeças podem explodir ou rolar... e rolam... Robespierre que o diga... Mas, para além das questões de controle e direcionamento, existe a questão espiritual e, por que não dizer, psicológica. A violência é matriz de múltiplos desequilíbrios e, quando está exacerbada, a monstruosidade predomina; a insanidade torna-se lei. Não é à toa que nossa sociedade padece enferma, tendo a violência como viga- mestra.

O coletivismo tem como principal problema, a invisibilização do indivíduo. A dissolução da individualidade. Para Marx, o indivíduo seria apenas uma abstração e o homem só se efetivaria em relação com os outros, ou seja, a sociedade precederia o indivíduo, inversamente ao que os libera