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Narrasias

Apresentação

      Quanto a mim, sou uma pessoa num processo hegeliano-dialético ( o pessoal de história adora esses termos), para descobrir quem sou nesse mundo de contradições marxistas e relações foucaultianas de poder. Esgueirando-me entre os  aspectos macro e micro da minha historia, tento encontrar uma abordagem teórico-metodológica capaz de analisar com eficácia as especificidades da minha individualidade (se é que ela existe ou é apenas uma construção social fundamentada em verdades relativas), as quais me impedem de chegar a conclusões definitivas acerca desse duvidoso fato sobre saber quem realmente sou.

     Dizem os historiadores que a distância temporal do objeto a ser estudado permite uma maior clareza para entender o mesmo. Acredito ser esse o motivo da permanente confusão em relação a minha  neurótica pessoa, a não ser que um dia, a partir de um estado alterado de consciência, eu possa me distanciar de mim, criando uma fenda no "tecido"  do espaço-tempo e analisando minha história por um ângulo privilegiado. Isso me permitiria, enfim, entender, mesmo hipoteticamente, esse ser complexo que não sabe nem quem é, ou seja, eu. De qualquer modo, na práxis, eu continuaria sem saber. Afinal, uma hipótese é apenas uma hipótese antes de passar pelo consenso da comunidade científica, correndo o risco de ser derrubada facilmente por uma pessoa que já tenha enchido a paciência com tanta loucura concentrada numa única cabeça, no caso a minha...

      Obrigado a quem teve paciência de ler até o fim. Pois é, para quem percebeu, sou estudante de história e, como já era meio louco , fiquei mais. Enfim , foi apenas uma tentativa descontraída de demonstrar como é dificil adquirir auto-conhecimento e mais dificil ainda é expor esse conhecimento. Não sei se me fiz entender. Espero que sim.

Trans-sinfonia

25 de agosto de 2011

 

      O intinerário era Vale dos Rios-Barra, com todos os vai e vem e volta e não vai... e não vai... e não vai... e vai indo... mais um pouquinho...ao rítmo invisível de Martinho da Vila, rítmo esse amplamente adotado, desenvolvido e divulgado no seio do trânsito soteropolitano. A melodia martiniana se intensifica, ganhando tons agudos ou graves a depender da configuração das nuvens que parecem aderir e exaltar o movimento geral da cidade. 

     Na verdade, esses aglomerados cinzentos de potenciais catastróficos imprimem seu próprio movimento ou não-movimento às óticas enclausuradas, nos seus carros. Não o movimento veloz, quando descem de seus tronos celestiais, mas aqueles goticulares vítreos ( as gotinhas se condensando no vidro, morosas, despreocupadas). 

     Eu observava tudo isso do famoso R3 rumo ao campus florestal ondinense. Talvez a preservação da mata auxilie as ciências biológicas... De qualquer modo, aquelas gotas se acumulavam tediosas na janela, quando um som peculiar me desvia a atenção... sanfona? Sim, era uma sanfona com direito à batucada de tambor! Por um instante acreditei que o São João havia retornado, apesar das feições pouco simpáticas de alguns ouvintes, atípicas no São João. O som era até agradável, o cantor nem tanto, mas sua voz se arrastava junto ao espalhar das águas nas janelas. Tudo ia mais ou menos bem até os vizinhos nos seus autoimóveis resolverem contribuir com o som mais alto ao seu alcance... 

     As buzinadas irrompem na atmosfera chuvosa e invadem dissonantes a harmonia junina que tentava se estabelecer no sistema auditivo. Não sei bem se existe conflito entre os sons ou se eu imaginei tudo isso, graças à dificuldade do cérebro em decodificar tantas "harmonias" distintas... Harmonias no Plural maiúsculo, porque não podemos esquecer do burburinho comunicativo e das pessoas na rua, tentando ganhar a vida precariamente. Nesse momento, entro numa crise existencial, pois tento abstrair tudo quanto seja possível, me aproximando de um estado meditativo-anestésico. Mas... como só Jesus salva, a meditação durou pouco.      

     A palavra de Deus me despertou com seu discurso arrebatador, pra não dizer sacudidor das entranhas do ser com foco especial no já castigado ouvido. Não sei se Jesus enunciou "gritai e orai"... (talvez seja um texto suprimido dos evangelhos ou, quem sabe, o nascimento de uma heresia que eu poderia batizar de enfaticismo, afinal os acadêmicos necessitam desses conceitos bem elaborados para seu próprio bem). Seja como for, meus ouvidos atingiram o nirvana devido à ressonância ininterrupta e insistente da palavra divina. O ônibus passava pelo transbordo que estava sendo batizado pelo ar ( pela água já está ultrapassado). A banda junina desce do seu palco móvel ( coisas da modernidade de recriar contextos e resignificar espaços) e, quando penso em me concentrar na melodia da chuva, eis que o pessoal é convocado para exercer seu papel de consumidores no capitalismo emergente das classes C, D e Etc.

     Boa noite, pessoal! Desculpe incomodar o silêncio da viagem que vocês devem estar fazendo com esse texto, mas, pessoal, chegaram aqui as deliciosas palavras mgenianas, esse texto que “cês” acabaram de ler. Agora, eu vou recolher e aqueles que tiverem interesse, aqui na minha mão, é apenas 1R$, na promoção! Perpétua promoção, diversão é o passatempo da viagem, pessoal!

 

      O trânsito pode ser lento, mas a cidade continua agitada e meus pensamentos seguem essa Trans-Sinfonia.